som de letra / 16.5.13
No dia 16 de maio, participei com poemas & uma entrevista da série O Blá do Poeta, do programa Som de Letra (Rádio MEC FM), comandado pelo grande mestre decompropositor Livio Tragtenberg. Acima, pode-se ouvir o programa na íntegra, e abaixo seguem o set de poemas e o texto produzido em resposta.
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Programa (em ordem de apresentação):
1. Depois; 2. Enquanto; 3. Primeira pedra; 4. Conversa com o carteiro; 5. Bucólica; 6. Domingo; 7. Paisagem mínima; 8. Primeiro ensaio depois do último; 9. Palco; 10. Tato.
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Eu acredito que seja importante colocar permanentemente em xeque os limites disso que se chama “criação literária”. Tentar produzir esse lugar, em vez de habitá-lo como espaço consolidado. Hoje em dia (e é muito provável que sempre tenha sido assim) é necessário repensar com que ambiente essa prática dialoga, ou contra o que ela se insurge. Não falo apenas dessa noção de “público”, como um fantasma demandante que dá o tom e orienta os procedimentos, mas em toda a maquinaria tecnológica e simbólica que permeia e informa o ato de invenção. “É preciso estar atento e forte” pra sacar as nuances do lugar da escrita num universo mediado por proliferações de toda ordem: do consumo, do ruído, da velocidade, da imagem, da nostalgia. Negociar com essas circunstâncias ambientais me parece ser a condição mínima pra fazer emergir uma prática de escrita que seja mobilizadora. Quando o interesse de invenção se orienta pelo aparato institucional, que condiciona formas, temas, modos de circulação, a poesia parece sempre anódina, sem poder de penetração, vivendo de um passado glorioso do qual ninguém se lembra, exceto os poetas. Contudo, hoje a gente vê como livros de poesia contemporânea têm conseguido conquistar espaço no mercado editorial, nas estantes do público, inoculando novas formas de pensar e de se pensar. Nos últimos anos (pelo menos é a impressão que eu tenho e que me alegra) excelentes livros de poesia têm sido publicados, e isso tem reposicionado o lugar da produção poética no nosso imaginário, e bem longe da arapuca da nostalgia e da reclamação. Por outro lado, muitos poetas tem assumido uma negociação mais frontal com o campo tecnológico ocupando lugares de programação em diversas mídias, “jogando contra os aparelhos” e se conectando a outros repertórios heterogêneos: sonoros, visuais, audiovisuais etc. Há mais ou menos 50 anos atrás, McLuhan já dizia que os artistas deveriam sair das “torres de marfim” e assumir as “torres de controle”: Talvez seja assim que a gente consiga escapar do desaparecimento.
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A internet é um acontecimento fundamental pra se pensar nessas condicionantes ambientais da escrita, de que tinha falado antes. Todos os gestos de escrita são afetados pelo poder conectivo da internet e do universo digital. Mesmo quando eu estou com uma caneta e um caderno, numa padaria, essa possibilidade de articulação atua no traço, no ritmo, na imagem que se produz, ainda que essa força pareça não se manifestar. A questão que se coloca aqui não é de ser isso algo positivo ou negativo, mas um fato de implicações indetermináveis [e determinantes]. Além do mais, a experiência digital redimensiona a presença do texto de um modo amplo, já que é ele o motor de funcionamento tanto dos softwares quanto da poesia. São formas muito diferentes de articulação, mas a aproximação entre essas operações já aciona um processo de contágio recíproco do qual a gente não pode fugir. O poema que escrevo num processador de textos está sendo agenciado na tela da minha máquina por um meta-texto, um software, que se desdobra em outros, que se desdobram em outros. Esse fluxo errático a que o universo digital dá vazão exige do poeta, do leitor, do crítico, um esforço de deslocamento pra que se possa manejar essa informação de forma satisfatória, dedicada às suas potencialidades, e não conjurá-la por desvirtuar nossas caríssimas noções de “poesia” e adjacências. E isso dispara outro fato implosivo: os espaços e ritos consolidados do universo da poesia são realocados, e os cânones se transformam cada vez mais em arranjos instáveis, parciais. A possibilidade do contato entre poetas de diversas gerações, de vários estados, países, atuando a partir de lugares profundamente distintos, é um grande acontecimento, que tira a gente da condição de refém de um sistema de referências (e reverências) enrijecido. O espaço poético e vivencial se excede pra além da experiência empírica do corpo, novas formas de afeto se produzem, e a conversa que se constrói pela partilha de repertórios se torna cada vez mais facilitada. Conviver com os labirintos de um site como o Ubuweb, ou do blog da revista brasileira Modo de usar & Co., é uma experiência que exige a produção de lugares de leitura e invenção imprevistos há alguns anos atrás, quando quase toda informação estava sob o poder dos manuais, das academias, das editoras. Além disso, a internet cria uma demanda de outra qualidade de textos, de grande velocidade que exige da gente um diálogo contínuo, num campo ainda sem demarcações institucionais: design e programação de páginas, de poemáquinas, virtualização do objeto-livro e dos fluxos criativos, assim como facilitação dos processos artesanais de edição, de produção e circulação do audiovisual etc. Formas sem fronteiras rígidas, estabelecendo uma relação direta com os leitores e com as próprias materialidades do texto.
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Eu acho que a gente vive num momento que, ainda que se inscreva sob o signo da dispersão, é profundamente criativo. Muitas formas de compor e decompor se tornam possíveis, e mesmo exigidas pelas novas tecnologias e pelos novos interesses que surgem delas. Manter um distanciamento crítico, e procurar não conviver com esses agenciamentos de maneira irresponsável, é uma demanda poética que deve ser atendida. O poeta tem aí um questão especial na qual se engajar, já que é de linguagem que estamos falando quando falamos de tecnologias. A cada movimento que se faz nessa selva tecnológica é preciso observá-la em sua opacidade de maneira que não nos tornemos reféns imbecilizados dos novos gadgets que surgem todos os dias. As facilitações das escritas audiovisual e verbal, a velocidade dos modos de circulação e a catalisação dos encontros e da partilha são índices de uma condição de diálogo, na qual é preciso estar empenhado pra que se possa exorcizar o monstro devorador da história única. E por conta dessa ampliação radical do campo gráfico-sonoro, das possibilidades de refuncionalização dos programas, e por testemunhar várias proposições em planos tão próximos quanto divergentes, eu sou otimista. A desterritorialização excessiva que a internet agencia me levou a fazer contatos importantíssimos com pessoas que vieram a ser parceiros e interlocutores, de várias gerações, de vários lugares. São poéticas bem heterogêneas que têm mobilizado questões pelas quais sou instigado diariamente. Como a do poeta-tradutor Reuben da Cunha Rocha, que tem formulado lances inadiáveis, em livros, performances e pixos transmídias que em breve começam a circular por aí; a do compositor (ou melhor, “decompropositor”) Negro Leo, designer da canção e do ruído, com seu recentíssimo e fundamental disco TARA; a do transcineasta Pedro Paulo Rocha e seus MOLOTOV FRAMES, agenciados por uma total clarividência; e a do Bruno Neiva, poeta e “reescritor”, atuando entre o escambo de invenção da arte-postal e a poesia verbivisual. Todas essas relações derivam de um modo ou de outro dessa potência demolidora e criadora de contextos que é o universo digital em seu delírio conectivo. E hoje, pra mim, é impossível escrever sem levantar a cabeça e sacar alegremente o que meus pares estão produzindo e o que as máquinas estão nos dizendo.
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Bem, minha formação inicial se deve em grande parte ao programa poético, tradutório e teórico do concretismo paulista, que me parece ter aberto caminhos fundamentais pro pensamento sobre poesia no Brasil. A proposição de uma relação tátil, intensiva, com o plano verbivocovisual da palavra e a ampliação dos repertórios poéticos constituem acontecimentos libertadores, que contagiam como um vírus os modos de leitura e produção, inclusive, do que hoje a gente pode chamar de “poesia discursiva” tradicional. Além disso, autores como Osman Lins, Sérgio Sant’anna, João Gilberto Noll e Campos de Carvalho constituem um mapa de uma ficção radical, exploratória, no Brasil, à qual ainda devo muito do que articulo em termos de escrita. Foi a partir dessa constelação que comecei a escrever ficção e poesia e, mais tarde, a conviver com textos de invenção de uma forma mais programática através de pesquisa, que é um campo adjacente no qual me empenho. Outras poéticas que permanecem relativamente alheias ao escopo do grupo paulista, e que fogem dos repertórios estritamente poéticos (num sentido verbal), me orientam intensamente, como as de Rogério Sganzerla, Walter Smetak, José Agrippino de Paula, Hélio Oiticica e Wlademir Dias-Pino. Esses autores representam proposições bastante distintas mas que operam já um deslocamento transversal entre linguagens e produzem espaços intervalares de criação. Além desses propositores, poetas como Waly Salomão e Ana Cristina Cesar, são marcos importantíssimos com os quais dialoga minha escrita. Em 2009, publiquei Retráteis, um livro de narrativas curtas (que está disponível pra download no meu Tumblr). O interesse que me impeliu a realizar esse objeto-livro estava na operação entre continuidade e descontinuidade que se produzia na leitura, a partir do uso de procedimentos de ruptura das relações causais do texto. São fragmentos de narrativas, descontinuadas, de modo que não se pretenda ativar pela leitura uma estratégia de recuperação de origem. Daí vem o nome, Retráteis, como convite à manipulação desses fragmentos, reunidos pela continuidade do objeto-livro. Hoje em dia, vejo que o livro é apenas uma manifestação pontual de um programa que tem se desdobrado até hoje, ainda que de modo subterrâneo e informe, mas que configura um campo de limites relativamente definidos. Depois da publicação dele, me dediquei com mais ênfase à produção de poesia, tanto verbal quanto visual e sonora. Dessa fase, que se estende até agora, publiquei poemas em jornais e revistas, como a brasileira Pitomba e a norte-americana Moria, e em algumas antologias. O contato que tive com alguns poetas contemporâneos, especialmente com Ricardo Aleixo durante uma série de performances e oficinas realizadas em Maceió (cidade onde moro), foi determinante pra que eu colocasse em xeque as condicionantes primárias da escrita de poesia (papel, caneta, processador de texto, livro etc.), e pensasse numa escrita em registro ampliado: sonoro, visual, tátil, tecnológico. Desde então tenho trabalhado com essa multiplicidade, que vai da escrita assêmica à programação. No começo deste ano, lancei uma intervenção web intitulada MAQUINAMENOS, inicialmente como homenagem aos 60 anos do livro POETAMENOS, de Augusto de Campos. É um work in progress técnico e conceitual, e daqui pra frente pretende se emancipar, inclusive, da cena de origem constituída pela referência ao livro, antropofagicamente. A máquina se faz como produção e operação de diagramas derivados das diferenciações de vozes (via tipografia) presentes nos poemas. Além de ser uma homenagem, é também um gesto crítico (assumindo radicalmente sua parcialidade) como instauração de um dispositivo exploratório do campo de possibilidades delimitado pelos poemas do livro. Além da concreção visual pelos diagramas há uma composição desta com o estrato sonoro a partir de samples de peças para piano de Webern. Produzi também o plano videográfico da performance CAIXAPREGO, do poeta-tradutor Reuben da Cunha Rocha, em diálogo com seus poemas, e a partir de samples visuais e sonoros da obra de José Agrippino de Paula. Atualmente desenvolvo séries de escrita conceitual pro que eu chamo de ESPÓLIO, objeto que reunirá esses blocos de experiências num livro-mosaico e trabalho na finalização e desenho do projeto gráfico do meu primeiro livro de poemas, que também contará com uma série de videopoemas na web.
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Como eu disse antes, muitos livros maravilhosos têm sido lançados, ultimamente, e fazem circular debates que exigem novos modos de aproximação, inclusive das nossas noções de “poesia”, “literatura”, “arte” etc. O contemporâneo é sempre uma calamidade pra aqueles que zelam pelo bom gosto, pelas leituras unívocas, restritivas. Livros muito novos, não só no sentido gráfico, mas no que tem de poder de formação, de design de linguagem (via Décio Pignatari), estão aparecendo, ainda que em diálogo com a tradição normativa do livro. Não dá pra esquecer que o livro é uma tecnologia sofisticada, renitente, que da forma “tipográfica” como conhecemos tem mais ou menos quinhentos anos, e não parece estar perdendo sua força. Ela condiciona formas de produção e de recepção, mas permite uma margem ampla de manobra, e é por isso que ainda persiste entre nós. Quando se fala de “crise do livro” é bom deixar claro que se trata de uma crise do mercado editorial, e não de sua materialidade, de sua potência. O mercado editorial parece que ainda está ensaiando respostas pras novas demandas que o universo digital coloca. Já alguns poetas resolveram não esperar, e têm investido em outros modos de circulação, que vão desde o artesanato de publicação à virtualização total do livro ou mesmo a sua abolição. Ainda há aqueles que dialogam com o livro como apenas uma das possibilidades de inscrição, de produção poética, explorando sua materialidade, contaminando o lugar transparente e hegemônico que esse objeto ainda ocupa entre nós. Programar sites, poemáquinas, montar videopoemas, compor canções, publicar livros: Temos um campo aberto de possibilidades de invenção.




